Gestão e Educação

Mercur e Portal Lunetas promovem encontro para dialogar sobre as múltiplas infâncias

Publicado em: 28 de novembro de 2019

Tempo estimado de leitura: 15 minutos

Por: Engaje! Assessoria de Imprensa

No dia 23 de novembro a Mercur e o Portal Lunetas, integrante do Instituto Alana, realizaram pela primeira vez no Sul do País o evento Lunetas Avista, que surgiu de uma vontade de ampliar os olhares, ser plural, conhecer de perto as infâncias do Brasil e fazer a conversa que o portal realiza virtualmente, ao vivo.

Como os adultos podem propiciar um ambiente seguro para que as crianças apenas “sejam”? Quais são os desafios para criar condições para que essa potência seja alcançada? Esses foram alguns dos questionamentos feitos pelas jornalistas do Portal Lunetas que mediaram as conversas entre o público e os painelistas convidados para o evento que aconteceu no Laboratório de Inovação Social da Mercur.

Como criar um espaço livre para a criança ser? 

O encontro iniciou com o painel “Como criar um espaço livre para a criança SER no território?”. A jornalista Mayara Perina, do Portal Lunetas, mediou a conversa entre o público e a pedagoga e educadora popular Fernanda Poletto e o facilitador da Mercur, Jorge Hoelzel.

 

Um homem e uma mulher estão sentados lado a lado. Os dois estão rindo e segurando microfones em suas mãos.

Jorge Hoelzel, facilitador da Mercur, e a educadora Fernanda Poletto. #PraCegoVer Um homem e uma mulher estão sentados lado a lado. Os dois estão rindo e segurando microfones em suas mãos.

 

Fernanda iniciou a conversa ressaltando que quando a criança se desloca pelo território, ela descobre o mundo. Segundo ela, o tempo não existe por produção. O tempo é uma vivência e é assim que a criança o percebe.

“Enxergar a infância através de uma luneta é pensar todo o desenvolvimento da humanidade. Os desafios da infância são os desafios da sociedade”, disse a educadora.

Ao longo da conversa ela, que admite sofrer de repetição da palavra infância, declamou algumas de suas poesias que valorizam os olhares e memórias da criança.

 

Quero colocar a palavra EDUCAÇÃO no palco. Quero dar a iluminação e melhor figurino para o lugar que a infância deve estar: no centro das atenções de qualquer esquina, ministérios, mesas de jantar, chats, livros e posts.Quero dar à criança o direito básico de ser autora e cocriadora de sua aprendizagem. Eu, professora, apoiando um espetáculo, um romance épico, tirando o pó dos possíveis livros não escritos e teatros abandonados pelo projeto da miséria humana. Abrindo as cortinas da poesia encravada na natureza do desenvolvimento humano. Respeitável público, eu vos apresento o maior sucesso da humanidade: A Criança. (Fernanda Poletto) #PraCegoVer Um postal pendurado em um varal com prendedor de madeira traz ao centro um desenho com traço infantil de uma pessoa com braços de galhos e raízes e a frase ‘Falar de infância é criar uma floresta no peito’

 

Jorge, que busca com o trabalho na Mercur apoiar iniciativas que valorizem a Educação na comunidade em que a empresa está inserida, iniciou sua fala questionando: “Como podemos trazer as crianças para um mundo com uma proposta nova? Onde o mais importante seja o aqui e agora, as relações humanas”. Ele contou sobre a decisão da Mercur em eliminar os personagens dos produtos que fabrica para a área da Educação, como borrachas, giz de cera e tintas e sobre a decisão de passar a ouvir, se relacionar e fazer com as pessoas e não mais para elas. 

Ele acredita que o combate à publicidade infantil não é responsabilidade apenas das famílias, mas de toda sociedade. “Quando o produto vem pronto, a criança é desestimulada. O personagem desestimula a criatividade. Nós entendemos que também temos papel de educar neste sentido, de promover reflexões sobre a vida, conversas sobre consumo responsável. Na Mercur queremos construir possibilidades para um outro mundo possível, que seja mais justo com todos. Então quanto mais pessoas envolvidas, mais perto se chega de algum resultado”, afirmou.

 

Em meio a um público atento, entre pessoas sentadas e outras de pé, uma mulher sorri, segurando um microfone em sua frente.

O público participou ativamente, propondo reflexões complementares ao tema: “A grande problemática da questão das crianças e do território está no território. Como construir um espaço seguro se temos medo, se estamos presos, se existe gente passando fome?”, questionou uma das educadoras na plateia. #PraCegoVer Em meio a um público atento, entre pessoas sentadas e outras de pé, uma mulher sorri, segurando um microfone em sua frente.

 

O segundo painel “Como criar um espaço livre para a criança SER na família?” foi mediado pela jornalista Renata Penzani. O psicólogo e terapeuta familiar Alexandre Coimbra e a doula Verônica Varela trouxeram questões como a valorização das diferenças e a necessidade de ter uma rede de apoio na maternidade.

“Família não é a base de tudo. Anote e repasse”, disse Alexandre ao introduzir sua fala. Segundo ele, família é uma ponte para uma comunidade, uma ponte para o mundo. “Esse singular absoluto que a vertente mais conservadora do Brasil está querendo definir como família é uma forma de enclausurar as identidades. Se as identidades são múltiplas, se as subjetividades são infinitas, a família não pode ser singular. E ela não pode ser fechada, tem que ser uma porta aberta. Tem que merecer sua incompletude, tem que gostar de ser incompleta”, ressaltou.

Para que isso aconteça, segundo ele, é preciso abandonar o mito da perfeição do pai e da mãe. “Uma das maiores tragédias que uma criança pode ter é achar que o pai e a mãe são perfeitos. Ela precisa nos ver imperfeitos para ter esperança em ser adulto. Porque ela passa a vida inteira dela com todos os adultos dizendo que ela é imperfeita, que precisa fazer diferente, etc. . Assumir as nossas imperfeições como cuidadores e como sistema familiar é a ponte para uma vida mais pluralista, para mais liberdade de construção da identidade da criança e do adolescente e para o ideal mínimo de convivência social”, destacou.

Alexandre falou ainda sobre a importância de recuperar os sentidos de comunidade. “Essa família que é uma entidade fechada e de moral restrita, não troca, aprende e cresce. Ela vira uma caixa rígida onde as pessoas precisam caber dentro dela. A família imperfeita tem humildade de ir para a comunidade e dizer “não sei, quem pode me ensinar?” Essa família que se aceita imperfeita convida as outras pessoas para habitarem dentro de casa e faz desse exercício uma experiência de convivência e tolerância à diferença”, disse.

 

Um homem está sentado entre duas mulheres à frente de uma plateia. Todos estão sorrindo.

Da esquerda para a direita, a jornalista Renata Penzani, o psicólogo e terapeuta familiar Alexandre Coimbra, e a doula Verônica Varela interagem com o público. #PraCegoVer Um homem está sentado entre duas mulheres à frente de uma plateia. Todos estão sorrindo.

 

Sobre família, maternidade e paternidade, Alexandre disse ainda que é preciso colocar em evidência todas as vivências desses núcleos, não apenas as positivas. Verônica complementou dizendo que a maior parte das informações que existem sobre a maternidade hoje funcionam mais para alimentar a culpa de não ser a mãe perfeita do que para libertar essa mãe. “Ser mãe sozinha, sem aldeia, é muito difícil. Instintivamente a mulher centraliza as tarefas do cuidado depois do pós-parto, mas é preciso dizer para aqueles que estão ao redor: eu preciso de ajuda. O diálogo é a base de tudo e a maternidade é um momento para aprender muito sobre isso”, compartilhou.

Segundo ela, os adultos precisam apresentar o mundo para as crianças com gentileza, empatia e leveza. “A gente quer fazer tudo tão certo, quer ser tão perfeito e quebrar o ciclo do que nossos pais fizeram conosco, que a gente considera errado, que acabamos atordoados na maternidade e na paternidade. Às vezes esquecemos de olhar no olho das nossas crianças e entender que elas são sujeitos que sentem amor, raiva, medo  e frustração. A gente precisa compreender que elas ainda têm uma essência muito importante, que vamos perdendo ao longo da vida, que é a de só SER, sem sofrer para agradar ninguém e sem tentar se encaixar”, encerrou.

 

Diversas mulheres estão sentadas em cadeiras, lado a lado. Elas estão concentradas, fazendo anotações em seus cadernos e blocos de anotações.

O evento contou com a participação de pessoas ligadas à educação. Além das anotações, contribuíram com os debates dos painéis contando sobre as suas vivências. #PraCegoVer Diversas mulheres estão sentadas em cadeiras, lado a lado. Elas estão concentradas, fazendo anotações em seus cadernos e blocos de anotações.

 

O terceiro e último painel “Como criar um espaço livre para a criança SER na escola?” também foi mediado pela jornalista Mayara Perina e contou com a participação do historiador Fernando Leão e da professora Larisse Moraes, criadora do Projeto Afroativos – Solte o cabelo, prenda o preconceito, atividade que conta com protagonismo direto das crianças. Dois de seus alunos, Ketlyn Vieira e Alisson Alexande, também participaram do painel contando sobre seus ativismos.

Há dois anos a ideia do Afroativos é promover empoderamento, conscientização e transformação por meio da educação afroafirmativa. Segundo Larisse, os resultados da iniciativa podem ser observados no dia a dia da escola e no comportamento dos alunos, seja no desenvolvimento de uma autoestima conectada com a identidade afrobrasileira, seja pela multiplicação de ações que dialogam com a representatividade negra, como oficinas, palestras e apresentações.

 

Uma moça e um rapaz estão de pé, de mãos dadas e olhando um para o outro, no centro da foto. Atrás deles, um homem e duas mulheres estão sentados e em sua frente, um público está em semicírculo, atento à cena que os dois estão interpretando. Algumas pessoas estão gravando com seus celulares.

Ketlyn Vieira e Alisson Alexande, integrantes do projeto Afroativos, contaram sobre sua participação e ativismo no projeto que visa difundir uma educação afroafirmativa. #PraCegoVer Uma moça e um rapaz estão de pé, de mãos dadas e olhando um para o outro, no centro da foto. Atrás deles, um homem e duas mulheres estão sentados e em sua frente, um público está em semicírculo, atento à cena que os dois estão interpretando. Algumas pessoas estão gravando com seus celulares.

 

Dentre as iniciativas do projeto, está a criação do Calendário Afroafirmativo. Uma ideia para apresentar às crianças, mês a mês, os grandes marcos da cultura afro e também as biografias e realizações de personalidades negras. São datas festivas, comemorações e datas que marcaram não só nascimentos, mas mortes, leis, congressos, entre outros. Na ocasião eles compartilharam mostrando ao público alguns dos resultados já alcançados com o grupo de pesquisa.

“A ideia do calendário afro tem a ver com o fato de que somos negros o ano inteiro, não só em novembro. Como podemos falar em infância livre se a infância é negada a uma parte das crianças? Não podemos falar sobre como construir uma escola segura para a criança SER sem falar de desigualdade. No Sul a desigualdade racial é gritante”, ressaltou Larisse. 

 

A educadora Larisse Moraes ouvia seus alunos compartilharem casos de racismo e violência por causa da cor da pele e cabelos e por isso, junto com eles, criou o Projeto Afroativos, hoje um grupo de pesquisa que difunde uma educação afroafirmativa. #PraCegoVer Uma mulher está sentada entre um homem e outra mulher. Ela está com uma das mãos no colo e a outra segura um microfone em sua frente. Ela demonstra satisfação ao contar sobre o seu trabalho.

 

Fernando complementou dizendo que é preciso que os educadores ouçam cada vez mais.

“A palavra professor tem a mesma raiz etimológica de profeta, de professar. Se cada vez os professores falarem menos e ouvirem mais, isso abre brecha para o fortalecimento da autonomia do aluno. Veja a importância desse projeto da Larisse. Um profissional da Educação que não ouve está fadado ao fracasso”, comentou.

Disse ainda que é necessário que os educadores nomeiem os acontecimentos para conseguir transformar os conflitos nas escolas: “É necessário que a gente dê sim nome às coisas: Ah, ele foi polêmico. Não, ele foi racista. Ah, foi descuidado. Não, foi uma violência”. Fernando acredita que o livre pensar é só pensar. Que as escolas hoje em dia ainda não criam um espaço livre para que as crianças sejam, elas ainda são espaços de aceitação e subordinação.

 

Enquanto o evento acontece, duas mulheres da plateia observam um dos materiais do projeto Afroativos, que mostra o diálogo entre duas meninas negras.

“- Guria, por que as pessoas me chamam de morena? – Será que elas pensam que ser negra é uma ofensa?” #PraCegoVer Enquanto o evento acontece, duas mulheres da plateia observam um dos materiais do projeto Afroativos, que mostra o diálogo entre duas meninas negras.

 

E o que podemos fazer para transformar essa realidade? Se você tem alguma ideia para compartilhar conosco escreva para: contato@mercur.com.br.

 

Um grupo em torno de 60 pessoas está reunido, posando para uma foto. A grande maioria são mulheres e todos estão sorrindo.

Registro do grupo que vivenciou a primeira edição do Lunetas Avista no Sul do País. #PraCegoVer Um grupo em torno de 60 pessoas está reunido, posando para uma foto. A grande maioria são mulheres e todos estão sorrindo.

 

Sobre o Portal Lunetas

O Lunetas é um portal de jornalismo para famílias e interessados na temática da infância. O site é uma iniciativa do Alana, organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, que aposta em programas que buscam a garantia de condições para a vivência plena da infância. O objetivo é disseminar informações, contar histórias, provocar reflexões, inspirar atitudes e explorar múltiplos olhares para as muitas infâncias do Brasil.

Sobre o Instituto Alana

O Instituto Alana é uma organização da sociedade civil, sem fins lucrativos, que aposta em programas que buscam a garantia de condições para a vivência plena da infância. Criado em 1994, é mantido pelos rendimentos de um fundo patrimonial desde 2013. Tem como missão “honrar a criança”.

Sobre a Mercur

Presente nas áreas de Saúde e Educação, a proposta da Mercur, hoje com 95 anos, é atuar em função das pessoas. Sua forma de trabalho é centrada em atender necessidades específicas para a promoção de autonomia, bem-estar social e ambiental. Na área da Educação há mais de 80 anos, a organização entende a aprendizagem como algo que vai muito além de conteúdos restritos a uma sala de aula, mas como uma jornada contínua, na qual o indivíduo aprende, experimenta, empreende e se legitima ao compreender a si mesmo e ao outro: uma educação para a vida. Além das tradicionais borrachas de apagar, entrega recursos que incentivam o uso compartilhado, o consumo responsável e são compostos com matérias-primas renováveis, buscando causar o menor impacto possível ao planeta, além de recursos de Tecnologia Assistiva.

Gostou desta publicação?
Compartilhe com seus amigos.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

Assine nossa
newsletter